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Dr. Samuel Abramavicus


• Como definir?

A acupuntura é uma somatória de conhecimentos, inicialmente na tentativa de erro e acerto, e em cima dos quais, desenvolveu-se uma série de teorias. Faz parte da medicina tradicional chinesa (MTC). A ela se agregam várias técnicas além de utilização das agulhas como moxa, ventosas e outras.

• Um pouco de história

A história da MTC estuda as origens, os processos do desenvolvimento e padrões da MTC, bem como, a farmacoterapia. Tenta-se com esses estudos elucidar o desenvolvimento experimental e o desenvolvimento das teorias que se seguiram com o conhecimento prático. Já no sexto século A.C, quando a maioria das pessoas no mundo ainda acreditava que as doenças eram causadas por espíritos, o médico chinês Yi He já tinha utilizado o desequilíbrio dos seis fatores - yin, yang, vento, chuva, noite e dia - para explicar as causas das doenças.

Há registros médicos e farmacêuticos na história médica de China, de mais de 4.500, esculpidos em madeira, ossos, casco de tartarugas. A origem de acupuntura e evolução relacionou-se de perto à melhoria constante na produção das ferramentas do homem primitivo. A pedra bian ou bian shi, em forma de charuto com uma das duas pontas afiada, por exemplo, é um instrumento que os arqueólogos acreditam ser o instrumento médico conhecido mais primitivo. Um dicionário de caracteres antigo explica que bian significa a cura de doenças picando com uma pedra. Eram também utilizadas agulhas de osso e madeira.

No período de 400 a 20 A.C, diversos autores dessa época escreveram o livro com o título de "O Tratado de Medicina Interna do Imperador Amarelo" que deu mais detalhes sobre as teorias da medicina tradicional chinesa incluindo a acupuntura e as diversas técnicas de acupuntura. Muitos conceitos continuam sendo usados até hoje, um exemplo disso é a inserção de agulha nos pontos dolorosos. Baseado nesse livro, surgiram outras centenas, desde os livros de conceitos teóricos até os de tratamento de diversas enfermidades.

O outro instrumento muito usado é a moxabustão que foi relacionado à descoberta e uso do fogo. Provavelmente as pessoas primitivas sentiam a parte do corpo mais próximo ao fogo muito confortável, e a dor local até mesmo poderia ser aliviada. Eles queimavam fibras de artemísia no local doloroso para aliviar o sofrimento.

A acupuntura se difundiu para a Coréia a partir do século V, D.C. e após o século VII, D.C. para o Japão. Durante o século XVII, os conceitos da Medicina Chinesa foram traduzidos e alcançaram a Alemanha e a França, influenciaram na homeopatia e finalmente chegou às Américas e Brasil.

• Mecanismos analgésicos da acupuntura

Estudando-se a ação da acupuntura, foram descobertas várias evidências de que o sistema nervoso tomava parte desse funcionamento. A referência dolorosa é modulada por, no mínimo dois mecanismos: 1-neurônios transmissores na substância cinzenta do corno posterior da medula espinal e; 2 -os sistemas supressores de dor no tálamo e no tronco encefálico.

• Vários estudos comprovam a ação da acupuntura

A introdução das agulhas nos pontos de acupuntura desencadeia o processo de analgesia. A comprovação deste fato é constatada pelo uso de anestesia no local próximo à inserção de agulhas. Fibras II e III que veiculam a sensibilidade discriminativa proprioceptiva e tátil dos nervos periféricos, encontradas nos pontos de acupuntura parecem exercem o papel importante da ação da acupuntura.

Os pontos de acupuntura apresentam baixa impedância elétrica. Nesses pontos a resistência elétrica da pele é menor do que nas outras regiões do corpo. (Hyvarinen & Karlson, 1977). A pele nas regiões dos pontos de acupuntura apresenta uma alta concentração de terminações nervosas sensitivas. (Chan, 84 ; Cizzek & Szopinski, 85 ; Cai, 92).

Após a interrupção dos estímulos persiste o efeito da acupuntura, significando que a acupuntura tem ação prolongada. Foi feito um estudo com circulação cruzada: em animais não tratados pela acupuntura se injeta líquido cefalorraquidiano de animais tratados, induz-se analgesia em animais não tratados (Lico e col. 1974), e também demonstram elevação do limiar de dor nestes últimos. Tais fenômenos indicam que fatores humorais estariam envolvidos na analgesia produzida pela acupuntura.

Quando se injeta naloxona anteriormente a inserção das agulhas de acupuntura, não se obtém o efeito analgésico. O fato contrário não bloqueia o efeito da acupuntura. A naloxona é um bloqueador de receptores morfínicos. A demonstração foi evidenciada quando se constatou aumento da concentração de endorfinas no líquido cefaloraquidiano de doentes submetidos ao tratamento com acupuntura. O efeito analgésico da acupuntura não é observado em animais que geneticamente possuem deficiência de receptores opióides ou de endorfina. Este fato reforça a teoria pela qual a endorfina seria um dos responsáveis pela genêse da analgesia por acupuntura.

O efeito da acupuntura sobre a dor cessa ou diminui sensivelmente em casos de transsecção da medula espinhal. Tal fato demonstra que estruturas supra-espinais participam no mecanismo de ação da acupuntura. Constata-se aumento da concentração de serotonina no líquido céfalo-raquidiano e nas estruturas neuronais do tronco encefálico caudal após aplicação de acupuntura. Bloqueadores serotoninérgicos anulam a ação da acupuntura.

A liberação de diversos peptídeos e neurotransmissores atuando em vários receptores como peptídeos opióides endógenos (POEs) ou seja, b endorfina, Leu-encefalina e dinorfina (R-m, d e k), noradrenalina (R-a2-adrenérgico), serotonina (R-5HT1 e 5HT3), acetilcolina (receptores muscarínicos RM1 e RM2), dopamina (R-D1 e R-D2), adenosina (R-A1), somatostatina (SST1, SST2 ), GABA (R-GABAA), neurotensina, substância P (SP), vasopressina, angiotensina, ACTH, ácido glutâmico (R-NMDA, AMPA, metabotrópico) e colecistocinina (CCK8) é estimulada pelo agulhamento e pela eletroacupuntura. As vias que compõem a espinotalâmicas, alcançam o núcleo reticular gigantocelular da formação reticular, núcleo magno da rafe e a substância cinzenta periaqüedutal mesencefálica e constituem o que se denomina, "via aferente da acupuntura". Sua estimulação promove analgesia e os efeitos comportamentais da estimulação álgica. A administração de naloxona e de soro anti-ß-endorfina no terceiro ventrículo e a hipofisectomia suprimem o efeito analgésico da estimulação (Bausbaum & Fields, 1978; Han & cols. 1984), o que vincula a analgesia por acupuntura aos opióides endógenos, sobretudo as endorfinas. A lesão eletrolítica das regiões mencionadas da via aferente da acupuntura também suprime o efeito analgésico do procedimento. Sabe-se hoje em dia que 70% dos pontos gatilhos ("trigger points"), utilizados para inativar pontos dolorosos, na medicina ocidental coincidem com pontos de acupuntura.

Os pontos de acupuntura onde as agulhas são introduzidas situam-se nos chamados meridianos. Entretanto existem outros pontos chamados de pontos extras que se mostraram efetivos em sua ação. São pontos de experiência e que não pertencem a nenhum meridiano. Estes pontos, pertencentes aos meridianos ou aos extras, quando estimulados produzem uma melhor analgesia do que pontos elegidos ao acaso. Os princípios, alicerçados na filosofia da Medicina Tradicional Chinesa, nos quais a acupuntura se baseia, ainda hoje são utilizados. Entretanto ocorre uma revisão contínua destes mesmos princípios associando-se ao conhecimento neurofisiológico, com o cuidado de não se deturpar seu real significado, ou seja, não permitindo a mistificação, o esoterismo, mas sim uma compreensão dentro dos padrões científicos modernos.

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